Rancharia

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Jovelino Mineiro aposta que pecuária brasileira voltará a ser um grande negócio

Jovelino Carvalho Mineiro Filho é um dos empresários mais destacados no meio rural quando o assunto é visão empreendedora. Proprietário da Central Bela Vista, de Pardinho, SP ­ que presta serviço na área de inseminação artificial ­ tornou-se, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) ­ pioneiro no desvendamento do genoma do boi Nelore, mapeamento que permite identificar, através de marcadores moleculares, quais genes transmitem características de importância econômica para a produção de carne. Mestre em economia e doutor em sociologia pela Universidade Sorbonne, de Paris, França, Jovelino tem propriedades em Rancharia, no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, e em Cornélio Procópio, norte do Paraná. É grande produtor de soja em SP, onde também começa a plantar cana-de-açúcar, e selecionador das raças Nelore (mocho e padrão), Brahman e Brangus, com um plantel de 5.000 matrizes registradas. Presidente da Associação Brasileira dos Criadores Brahman entre março de 2002 e março de 2004,Jovelino Mineiro é o atual diretor da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e do Serviço de Informação da Carne (SIC), conselheiro da Sociedade Rural Brasileira, Jovelino está convencido de que a precocidade é a última barreira a ser vencida pelo Nelore. Por isso, investiu R$ 1,5 milhão num laboratório montado na Bela Vista para avaliação de qualidade da carne e sua correlação com a genética. "Se o Nelore puder ser terminado rápido e jovem, entre 18 e 22 meses, melhor ficará para o pecuarista, que deve ser um produtor de carne, de filé mignon, de contrafilé. Acho que essa etapa chegou", diz ele, que também é acionista do Canal Terra Viva, do Grupo Bandeirantes de Comunicação.

Veja a seguir, a entrevista concedida ao diretor da DBO,
Demétrio Costa, e ao editor Moacir José.


DBO ­ Como o sr. vê a pecuária brasileira de hoje?

Jovelino - Está acontecendo algo quase esquizofrênico: temos sucessos estrondosos em alguns aspectos e dificuldades quase intransponíveis de outro. É muito dissonante. Nos últimos dez anos, houve uma grande evolução, em todos os aspectos, alavancada pela grande capacidade de empreender do pecuarista brasileiro. Mas com um problema: ninguém pensou para quem venderia a carne. Criou-se um sistema altamente eficiente, com uma idade de abate cada vez menor, que gerou uma superprodução. Só que com uma falta de foco total do produtor.

DBO ­ O grande abate de matrizes nos últimos anos, num processo de ajuste do mercado pecuário, em função também da baixa remuneração da arroba, vai continuar?

Jovelino - Estou convencido de que é preciso enxugar ainda mais o mercado. Hoje o produtor abate matrizes porque tem de pagar suas contas. Se não houver essa pressão contrária à oferta, ele nunca vai ter preço. Se não tem preço, ele não investe. E aí haverá uma redução de oferta pelo pior caminho possível: o sacrifício do próprio produtor. Então, é melhor que ele e as entidades que o representam tenham mais firmeza e decidam por diminuir o rebanho. Todo mundo reclama dos frigoríficos, mas a estrutura deles permite que se aproveitem da situação em alguns momentos de superoferta. Agora, quando o pecuarista vai comprar bezerro para recria e engorda também quer pagar o menor preço possível. O invernista que vai comprar boi magro, idem. Ninguém quer pagar mais caro, então, toda a cadeia tem seus pontos de pressão.

DBO ­ Quem teria de sinalizar para a necessidade de redução do rebanho?

Jovelino - As entidades representativas dos produtores. A CNA, a Sociedade Rural, a ABCZ... A ABCZ, sem dúvida alguma, é a maior entidade representativa da pecuária brasileira. Todas deveriam se ocupar um pouco mais disso.

DBO ­ Mas a imagem mais forte que se tem da ABCZ é a de uma entidade de selecionadores...

Jovelino - A imagem é essa, mas o fato não é esse. E estamos lutando para que isso mude. Não queremos ser um clube restrito de criadores. No ano passado, fizemos um encontro interamericano, do qual participaram 11 países vizinhos, para discutir saúde animal, saúde pública. Reunimos toda a cadeia produtiva em Uberaba. Na última Expozebu, houve debates sobre sanidade e outros problemas, e os produtores foram convidados a participar. Então, essa imagem deve ser mudada, porque os selecionadores estão contidos dentro do universo da pecuária.

DBO ­ Não deveria haver uma mobilização maior dos pecuaristas em função dessa crise?

Jovelino - Até por uma questão geográfica, a classe é desunida. Não há uma estratégia permanente. Há apenas uma pontual, como a da acusação de formação de cartel por parte dos frigoríficos (no início de 2005). Também acho que a pecuária é mal representada politicamente. Temos alguns deputados atraentes, mas o conjunto está muito aquém da importância do setor.

DBO ­ Sozinha, a ABCZ conseguiria assumir esse papel?

Jovelino - Acho que sim. Ela tem uma grande representatividade, uma grande força política. Além do mais, em 2002, conseguimos reunir entidades representativas dos produtores na Rural Brasil (CNA, ABCZ, OCB, SRB), numa iniciativa do João Sampaio, que presidiu a Sociedade Rural até dezembro último. Continuaremos junto com a CNA­ cujo presidente, Antônio Ernesto de Salvo, por sinal, é diretor da ABCZ ­, mas acho que a ABCZ terá mais atuação na área pecuária.

DBO ­ E quanto ao marketing da carne em momentos de superprodução?

Jovelino - Mais do que o marketing, acho que as marcas serão fundamentais. Veja o exemplo da Associação do Nelore, onde o Carlos Viacava que seguramente é um dos dirigentes com maior experiência no segmento ­ conseguiu criar uma marca para o Nelore. Foi um trabalho extraordinário. Antes disso, o pecuarista produzia boi, não carne. Essa mudança de conceito se deve muito a ele. Hoje na presidência do SIC, ele investe no trabalho de mostrar outras maneiras de se comer carne. Com melhor remuneração ao produtor, teremos carne por região. Carne do Pantanal, do Rio Grande do Sul, enfim, com características diferentes. Mas é necessário ter mais articulação. Na Austrália, por exemplo, ninguém produz sem saber se o produto tem comprador, se será vendido.

DBO ­ Para incrementar ações informativas sobre formas de consumo são exigidos recursos, que entidades como o SIC demandam. Há perspectivas de melhora nesse sentido?

Jovelino - Temos ainda a velha idéia de fazer um fundo para o marketing da carne, que é o que SIC precisa. Mas não vejo consistência política para se estruturar isso na cadeia da carne hoje. Estamos tentando, mas é uma luta longa.

DBO ­ Já somos o quinto maior consumidor de carnes do mundo. Dá para crescer mais?

Jovelino - Algumas ações poderiam incrementar o consumo de carne bovina, sem precisar esperar pela melhora na renda. Incluir o corned beef na cesta básica, por exemplo. Países com renda superior à nossa consomem esse produto, um tipo de "superalmôndega", de altíssima qualidade e preço baixo, que inclusive exportamos. Populações de renda mais baixa poderiam ter acesso a esse tipo de produto, até porque não dá para todo mundo comer churrasco. Temos mecanismos para fazer isso. A introdução de carne industrializada na cesta básica foi sugerida ao ex-ministro Roberto Rodrigues, mas as coisas andam muito lentamente no País.

DBO ­ Mudando um pouquinho para o lado empresarial, a Central Bela Vista previa incrementar em 20% sua capacidade de estocagem de sêmen em 2006. O ano ruim para a pecuária afetou o negócio?

Jovelino - Sofremos também. Mas, como a CENTRAL tem uma política clara de não vender sêmen, apenas oferecer o serviço de coleta e estocagem, o crescimento foi pequeno, menor do que o dos outros anos, mas houve. Porque os criadores querem continuar otimizando sua base genética. Já na área da pesquisa, nossa equipe está em Michigan, EUA, terminando a validação de alguns marcadores moleculares, voltados para precocidade e qualidade de car ne, os grandes desafios da raça Nelore, para cujo enfrentamento estamos tentando contribuir, modestamente. O laboratório de carne vem para certificar, por exemplo, a ausência de resíduos de metais pesados na carne e uma série de outras características que, acredito, serão muito importantes no futuro próximo. Outra iniciativa que tomamos, com apoio da Associação Brasileira de Inseminação Artificial, foi propor a três grandes frigoríficos que premiassem a carcaça de animais de inseminação. Isso incentivaria a produção dirigida de animais para abate, valorizando o uso de touros comprovadamente melhoradores para a produção de carne. A proposta também foi feita para a Abiec.


DBO ­ Isso vai exigir rastreabilidade...

Jovelino - Com certeza. Acho que se esperneou muito na questão da rastreabilidade, mas os problemas terão de ser superados para implantá-la no País. Porque não se pode pensar num produto com uma maturação de dois-três anos sem um controle rigoroso.

DBO ­ Como o senhor avalia o combate à aftosa no País?

Jovelino - O trabalho que se fez nos últimos anos foi extraordinário. Mas, depois de um período, relaxamos. Não se deu continuidade às políticas, por exemplo, de um Fundepec na década de 90. Estive recentemente na Europa e vi que eles têm claro que o problema da aftosa são as comunidades indígenas que não querem vacinar e alguns assentamentos onde ocorre algo semelhante. Então, de um lado, há um grande esforço, e de outro se relaxa no combate. Os problemas podem ser contornados, porém. As áreas de circulação viral são conhecidas. São só três, até fáceis de serem atacadas. Parece loucura falar isso, mas é verdade. É preciso que o Brasil assuma a liderança desse processo na América do Sul. O Sebastião Guedes, do CNPC, tem feito um grande trabalho de conscientização nesse sentido. É preciso ter vontade política. Dinheiro até existe.

DBO ­ Que caminhos o senhor vê para o pecuarista nos próximos anos?

Jovelino - Sou muito otimista. Acho que carne no Brasil será um grande negócio. A superprodução forçou os preços para baixo, mas houve a contrapartida da melhoria na qualidade do rebanho. Há muita tecnologia aplicada, como FIV, TE etc., técnicas que proporcionam animais com muita carga genética. Se isso continuar ­ o que acredito vá acontecer, principalmente nos zebuínos ­, junto com a redução do rebanho, teremos uma situação bem melhor em termos de remuneração, uma relação de mercado mais equânime.

DBO ­ Por isso o senhor não reduziu os investimentos na central...

Jovelino - Ao contrário, aceleramos. Estamos reunindo o máximo conhecimento possível sobre carne na central. Fizemos o seqüenciamento genético do Nelore, descobrimos uma porção de coisas importantes, mas estamos cautelosos. Temos o compromisso de apresentar essa novidade ao mercado entre março e abril. Vamos fazer um lançamento restrito, com alguns criatórios importantes, para ver como funciona. Não dá para brincar com isso. Não dá para colocar no mercado um marcador molecular que não possa ser validado, auditado e que represente a verdade. A idéia do marcador é democratizar o conhecimento e não restringir o mercado. Ou seja, vou ser remunerado na medida em que eu possa mostrar ao maior número possível de pecuaristas que caminhos eles podem tomar.

DBO ­ Os marcadores serão uma realidade dentro de quanto tempo? Quatro anos, cinco anos?

Jovelino - Antes disso. Várias pesquisas em andamento precisam ser validadas cientificamente, mas o Brasil conseguiu, graças aos cientistas da Fapesp, uma capacidade de trabalho importante na genômica, uma sofisticação muito grande nessa área, coisa que poucos países têm. Como temos o maior rebanho comercial do mundo e o envolvimento de grandes empresas, nacionais e estrangeiras, nesse processo, rapidamente teremos o quê apresentar nessa área.

DBO ­ Essa tecnologia ficará restrita ao "topo da pirâmide"?

Jovelino - Como eu disse antes, o objetivo dessa tecnologia é democratizar a informação. Um criador pode perfeitamente pegar alguns de seus animais, que considera bons e, mandar fazer uma análise de DNA; se ele tiver boa perspectiva, usa esse animal. Não pode virar uma coisa exclusiva de grandes criadores, para ter conseqüência efetiva na carne.

DBO ­ A comercialização de reprodutores e matrizes teve uma mudança acelerada neste último ano. Como participante bem ativo desse mercado, com venda de 1.000 tourinhos por ano, em leilões e na fazenda, como o senhor está observando essa mudança?

Jovelino - Por motivos distintos, houve uma expansão muito grande da oferta de animais de elite. Em parte por causa dos meios de comunicação, com a televisão à frente, que possibilitaram mostrar ao País inteiro vendas diárias de reprodutores e matrizes. Isso gerou uma superoferta, alimentada também por capitais de outros segmentos que entraram na pecuária. Esses capitais não conseguem ser remunerados e saem da atividade, aumentando ainda mais a oferta, em termos de liquidação de plantéis, principalmente. Essa oferta gera um benefício aos pecuaristas, que é o de comprar bons animais a preço baixo, mas gera um desequilíbrio no mercado de seleção, de genética fina, com a ampliação exagerada das possibilidades de venda. Para esse segmento, leilão virou o pior negócio do mundo, porquê o vendedor paga tudo à vista e vende em 14 parcelas. Tem leilões vendendo com 30 parcelas de pagamento. Isso não tem sentido!

DBO ­ Mas não é porque está todo mundo sem dinheiro?

Jovelino - É, mas algumas coisas vão ter de ser negociadas, para que esse mercado continue existindo. Porque ele é importante. Então, há uma certa intranqüilidade por parte dos pecuaristas que vivem da atividade quanto à credibilidade de alguns sistemas.

DBO ­ Intranqüilidade em que sentido?

Jovelino - Há uma sensação de que pode haver manipulação de preço. E isso pode ser fatal para o sistema de comercialização. Por outro lado, a estratégia de muitas parcelas para puxar o preço para cima não funciona. Isso não vai continuar por muito tempo. Porque a conta não vai fechar. Haverá muitas liquidações. Porque nesse mercado de genética, se você não ganhar dinheiro com o animal, acabou o negócio. Por isso, a transparência vai ser fundamental. Recentemente estive em Dallas, nos Estados Unidos, onde vi um sistema muito interessante de comercialização de animais. São leilões virtuais de gado de corte, o dia inteiro, com uma mesa operadora, o leiloeiro, os pisteiros e, uma área destinada ao público que circula por ali, sem dar lances, mas assiste e vê o sistema funcionar. Isso dá um grau de confiabilidade muito grande. Algo bem diferente do que vem ocorrendo com nossas leiloeiras... É um mecanismo que pode dar um pouco mais de ordem ao sistema de comercialização. Acho que a Internet também vai ajudar no processo de transparência na comercialização. Na verdade, nem vai ser leilão; a oferta está lá e você compra ou não.

DBO ­ Os leilões físicos vão acabar?

Jovelino - Creio que não, mas a tendência da comercialização virtual é crescente e irreversível.
Eu vejo as leiloeiras se direcionando mais para o gado comercial, animais de recria, de engorda e de reprodutores comerciais que vão servir as matrizes que geram esses outros
animais, gado que movimenta um volume de recursos muito expressivo no Brasil. O que acabará levando a preços mais realistas. Para o gado comercial a medida vai ser o peso. Acho que estamos numa fase de ajuste.

DBO ­ Esse ajuste dura quanto tempo?

Jovelino - O pecuarista ainda está com problemas financeiros e precisa de tempo para se estruturar. Leva 2007 se arrumando e em 2008 pode ficar melhor. Mas já estamos saindo do fundo do poço.